Quando me conheci, me amei.

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Sempre quis ter duas varetinhas no lugar das pernas, sempre achei meu cabelo sem graça – nem claro, nem escuro. Sempre quis ser ruiva como minha vó, eu queria os olhos verdes dos meus pais e minha irmã, só eu nasci com o tal do mel – de novo nem claro, nem escuro. Eu passei bons anos da minha vida escolar ouvindo provocações, era bullying, mas esse nome só veio quando eu já tinha passado por aquilo tudo. Já cheguei em casa chorando muitas vezes quando mais nova perguntando por que eu era a mais feia da turma. Bom, é verdade que eu deixei de ser a bolinha que era, verdade que tirei o aparelho dos dentes, que comecei a me cuidar, que assumi meus cabelos, parei de roer unha, mas principalmente, eu passei a gostar de mim.

Eu ainda visto 38, não vou chegar no 36 nunca. Ainda tenho o cabelo e os olhos com cor de nada, mas eu me adoro! Nada mais gostoso que amadurecer um pouco e chegar a conclusão de que o mais bonito é o que só você tem, é o que não dá pra comprar, é o que só você e sua bagagem podem te proporcionar. Eu não sou as minhas pernas tortas, não sou meus braços gorduchinhos, não sou meu pé feio, eu não sou minhas sardas e nem meu nariz arrebitado, eu não sou nada disso. Eu sou meus traumas, eu sou meus filmes preferidos, eu sou as músicas que escuto e os lugares que frequento, eu sou livros que leio, os sapatos estranhos que uso, eu sou meu medo de avião. Eu sou o amor pela minha família, eu sou meu choro fácil, eu sou o que eu escrevo, eu sou a cicatriz do piercing que ficou depois que a adolescência passou, eu sou as tatuagens que eu quis fazer, sou meu CD preferido, eu sou as viagens que fiz, eu sou as pessoas que conheci, eu sou minha gastrite, sou meu desvio do septo, sou meu fone de ouvido. Eu sou as gargalhadas que soltei, as lágrimas que derramei e os micos que paguei. Sou meus sucessos e meus fracassos, meus ciúmes e minhas seguranças, eu sou minhas contradições e coerências. Eu sou meus medos, eu sou meus cheiros preferidos, eu sou as flores que gosto de cheirar, sou a carne que não como. Eu sou meu choro escondido e meus pensamentos embaixo do chuveiro, eu sou pés pés na areia e banho de chuva. Eu não sou as poses que faço nos autorretratos e muito menos eu sou o número que aparece na balança ou nos seguidores das redes sociais, eu não sou o que você vê. Eu sou o que eu faço os outros sentirem, eu só sou pra quem quer ver quem sou. Eu sou minha coleção de livros e bonecos, eu sou uma estampa floral, eu sou meus vícios. Eu sou o que ninguém tira de mim, sou o que eu escolhi pra mim, sou o que resultou da mistura dos montes de tralha que sigo jogando na minha bagagem.

Eu aprendi a me amar, eu amo a bagunça toda que meus anos acumularam. É por isso que eu gosto de mim. Eu quero a leveza de me aceitar como sou e quero sempre ter claro na mente que eu não vim aqui pra agradar olhos de ninguém e sim corações. Eu aprendi que beleza sai pelos poros que a gente vive tentando tapar com aquela base importada, eu aprendi que é tolo querer ser a mais bonita da festa, isso é coisa de quem não se ama e não consegue ir dormir sozinha. Quem se ama dança na frente do espelho e pouco se importa se a amiga veste dois números a menos, quem se ama se leva pra passear, vai no cinema sem ninguém e ri baixinho quando nota um olhar piedoso de quem não suporta a própria companhia. Eu tenho muitos defeitos, mas eles são todos meus, são parte do que eu sou e de tudo que vivi pra me ser e me amar. Não liguem se alguém não gostar de você, você não está aqui pra viver conforme as expectativas de ninguém, seja fiel a você, saiba quem você é e se ame antes e acima de tudo, só assim os outros vão poder saber quem você é e, então, também amar você.

23 comentários sobre “Quando me conheci, me amei.

  1. Giulia disse:

    Acrescentando a tudo o que você disse, Hari, quando nós e todas as outras pessoas nos perceberem e perceberem umas as outras por trás dessa camada tão superficial que é a aparência, seremos mais gentis com nós mesmos e com os outros. Passaremos a dar devido valor ao que realmente importa sem deixar que “a primeira impressão” nos atrapalhe de conhecermos e entendermos uns aos outros.

  2. Victoria disse:

    Seu blog é sempre uma caixinha de surpresas pra mim. Parece sintonia de pensamentos, eu penso e você escreve… Tão bom saber que existem pessoas como nós 🙂

  3. Canal 24 disse:

    Texto maravilhoso.
    Me identifiquei com quase todos os pontos.
    Ainda falta muito pra mim conseguir ter uma auto estima assim.
    Sempre estou por aqui lendo o seu blog.
    Beijos.

  4. Leticia Marino disse:

    Eu poderia não comentar, porque sempre leio, gosto e nunca comento por não achar necessário. Mas hoje não teve como porque me identifiquei demais! Parabéns pela forma que escreveu, tão simples e espontânea, mas, ao mesmo tempo, muito rica. Quando vamos evoluindo o grau de maturidade conseguimos ser mais felizes com os essenciais, com o que há dentro, com o que não podemos ver! Deus te abençoe 🙂

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