Essa seria só mais uma ilustração, mas não.

f1c716c02fb71a373645e5226e55826dSe eu fosse homem, minha identificação com essa ilustração seria ainda maior. Aos 13 anos, se eu fosse um menino, eu teria moicano. Aos 13 anos, eu imprimia páginas e páginas sobre a anarquia e o movimento punk, andava pra cima e pra baixo as lendo e achava que aquilo era a coisa mais linda do mundo. Eu andava com camisetas pretas de rock com cruzes cortadas, com caveiras, ouvia umas músicas mal feitas e muito barulhentas. Passava a semana pedindo pro meu pai deixar eu ir em shows no fim de semana em uma casa escura e sem estrutura, eu odiava as patricinhas da escola, trocava fitas cassete com os meninos e dedicava a minha vida a pedir pra minha mãe assinar um papel que autorizasse eu tatuar um A da anarquia no pulso. Eu morava na terra do forró, fazia 30 graus o ano inteiro, mas ouvia hardcore e usava preto. Não, não vim falar sobre a minha pré-adolescência revoltada – até porque nunca me revoltei. Mãe, se você estiver lendo isso, esse texto é pra você! Não deve ser fácil ser mãe, mãe de uma menina menos ainda, mãe de DUAS, meu Deus… Isso é para as heroínas. Eu sou a mais velha, fui a primeira a crescer e não deve ter sido nada legal quando barulhos estranhos começaram a ecoar do meu quarto, quando apareci com a ideia de pintar a parede de preto e quando surgi em casa com uma camiseta estampando as palavras BAD RELIGION. Ela, do interior do Rio Grande do Sul, foi uma adolescente hippie, fã de Bob Marley e se tornou uma mãe de tirar o chapéu, ao contrário das mães religiosas das meninas da minha turma, ela não se revoltou e nem tentou mudar as minhas decisões… Foi a primeira a se oferecer a me levar na galeria do rock quando demonstrei o interesse em ir e me levou uma, duas, três, quantas vezes eu quis ir. Ela me deu as camisetas pretas, os CDs barulhentos, ela me acompanhou quando quis colocar meu piercing no nariz aos 15. Me levou na costureira pra fazer minha saia camuflada de pregas que eu tanto queria e não achava em lugar nenhum. Nunca me pediu pra tirar o coturno e nem disse que aquela corrente pendurada na minha saia era ridícula, eu não sabia me maquiar, meu olho preto quem fazia era ela. Me ouvia todos os dias seguintes dos shows quando eu, eufórica, contava dos moshs que eu tinha visto e sobre como era interessante observar aquela roda punk, ela fingia um interesse realmente convincente. Ela não me julgou quando cortei curtíssimo o cabelo que era na cintura, disse que eu estava estilosa. Explicou para meus avós que era uma fase e que era pra me deixarem, segurou as pontas com meu pai – pra ele deve ter sido mais difícil ainda. Aliás, ela me apresentou a MTV quando eu ainda era uma criança, me fez admirar o Gastão que depois me levou pra TV Cultura e com Musikaos me jogou mais ainda nesse meio “underground” e que mãe nenhuma entendia. Ela até se arriscava a escutar umas músicas que eu pedia pra ela ouvir e era sincera “a mãe não gosta disso, filha”. Ela me deu meu primeiro all-star, convenceu meu pai a me deixar ir no primeiro show de rock e ao me deixar na porta, antes de eu sair do carro, disse que eu estava linda – eu não estava. Essa ilustração me deixou com um sorriso no rosto e me remeteu a minha mãe porque ela sempre me respeitou, nunca quis que eu fosse outra coisa que eu não sou, mesmo que eu fosse diferente das outras meninas da minha idade e diferente de qualquer coisa que ela mesma tenha sido. Ela suportou meus choros quando eu chegava em casa arrasada pelos bullyings que sofria na escola e tentava me convencer que eu não era a menina mais feia da turma – como eu realmente acreditava ser. Ela sempre me encorajou a ser Hariana, nunca quis que eu fosse Débora, Gabriela, Bruna, Fernanda, nunca me comparou, ela só queria que eu fosse eu e que eu respeitasse as Déboras, Gabrielas, Brunas e Fernandas. Ela me ensinou que não importa a carapuça, não importa o que está no meu armário, no meu discman – que evoluiu pro ipod ou nos meus cadernos de anotações. Ela nunca quis controlar meus instintos, sempre me apoiou e me ensinou a cuidar do quem tem dentro. Ela me ensinou sobre respeitar, sobre olhar as coisas boas da vida, me ensinou como se ama alguém, me ensinou que ser do bem vale muito mais a pena e foi, justamente, por ela nunca ter me julgado e sempre ter me respeitado que eu aprendi isso tudo. Ela era marinheira de primeira viagem, não sabia como criar alguém e adotou a melhor das estratégias: deu o exemplo. Hoje eu abandonei a ideia da anarquia, sou grata por ela não ter assinado o papel do A, quase não tenho camisetas de banda, abrangi muito meu gosto musical, cresci, me tornei uma pessoa de bem, nunca repeti de ano na escola, me formei na faculdade e ganho meu próprio dinheiro, deu tudo certo – ela sabia que daria. Quanto às minhas amigas que cresceram sendo o que as mães queria que elas fossem…. bom, elas estão ainda tentando se encontrar, perderam-se de si mesmas muito cedo e para um adulto é muito mais difícil reconhecer-se depois de tantos anos, a memória é fraca e o caminho de volta talvez nunca seja encontrado. Obrigada, mãe, por mesmo ouvindo reggae e usando saias hippies ter me dado meus CDs de rock e camisetas com estampas agressivas, parece uma besteira sem tamanho, parece um exagero, mas esse respeito nos anos em que eu me formava como pessoa fizeram toda a diferença e eu seria hoje uma pessoa totalmente diferente se tivesse tido que lidar com a sua censura. Obrigada, o que eu sou, eu dedico à você.

16 comentários sobre “Essa seria só mais uma ilustração, mas não.

  1. Malu Jobim disse:

    Que texto lindo! De verdade. Eu acho muito bonita a relação de vocês. Esse respeito mútuo, tratamento de igual pra igual é impagável. Quer dizer, talvez não de igual pra igual porque ela é sua mãe, mas essa compreensão de vocês. Admiro muito!

  2. Nic disse:

    Espero ser para os meus filhos o que sua mãe foi pra você. A minha me educou muito bem, mas acho que por ter seis irmãos e de cidade pequena, não teve uma base para poder me deixar ser o que queria ser no momento. Nunca me deixou fazer piercing na língua, não me deixou pintar minha parede de preto também… Me limitou um pouco, mas eu me achei quando cresci e agora ela ainda está se acostumando com isso. Tenho duas irmãs gêmeas que acabaram de fazer 12 anos… Agora ela vai sofrer, Ou não, vai ver aprendeu comigo.

    Adoro seus textos mais pessoais, os que não me identifico, guardo de referência para o futuro.

    Beijos

  3. Nic disse:

    Espero ser para os meus filhos o que sua mãe foi pra você. A minha me educou muito bem, mas acho que por ter seis irmãos e de cidade pequena, não teve uma base para poder me deixar ser o que queria ser no momento. Nunca me deixou fazer piercing na língua, não me deixou pintar minha parede de preto também… Me limitou um pouco, mas eu me achei quando cresci e agora ela ainda está se acostumando com isso. Tenho duas irmãs gêmeas que acabaram de fazer 12 anos… Agora ela vai sofrer, Ou não, vai ver aprendeu comigo.

    Adoro seus textos mais pessoais, os que não me identifico, guardo de referência para o futuro.

    Beijos

  4. Nic disse:

    Espero ser para os meus filhos o que sua mãe foi pra você. A minha me educou muito bem, mas acho que por ter seis irmãos e de cidade pequena, não teve uma base para poder me deixar ser o que queria ser no momento. Nunca me deixou fazer piercing na língua, não me deixou pintar minha parede de preto também… Me limitou um pouco, mas eu me achei quando cresci e agora ela ainda está se acostumando com isso. Tenho duas irmãs gêmeas que acabaram de fazer 12 anos… Agora ela vai sofrer, Ou não, vai ver aprendeu comigo.

    Adoro seus textos mais pessoais, os que não me identifico, guardo de referência para o futuro.

    Beijos

  5. Georgia disse:

    Que lindo, em boa parte disso eu vi minha mãe, passei por uma fase parecida e sei que pra minha mãe também não foi fácil, também passei a tesoua no cabelão, que ela amava e cuidava desde sempre pra mim, e enfim, ela também foi comigo colocar meu piercing no nariz, quando eu tinha 13 anos, e intermediou a situação com meu pai. Enfim mães são lindas, e admiro muito as de primeira viagem, como a minha e a sua, que lidam com todas as situações da melhor forma possível.

  6. crrrs disse:

    Copiei o link para que minha mãe pudesse ler. Uau, quantas coisas em comum! Eu cheguei a tatuar a letra da minha música favorita de uma banda punk. Foi minha primeira tatuagem e mostrei pra ela depois de fazer. Mas ela nunca foi contra. Olhou e disse com uma carinha que contrariava, “uau, ficou linda Cris!”. Fiz muitas besteiras com relação à shows e essa loucura da fase punk adolescente. Hoje eu acredito que ela dorme bem mais tranquila sabendo que eu me afastei dessa cena, parei de pular do palco e voltar toda arranhada pra casa. Mas ela sempre sempre apoiou e aceitou meu jeito meio maloqueira de ser. Acredito que possa ser pelo menos um décimo tão compreensiva e amiga quanto elas são! Um texto que mudou minha tarde! Obrigada 🙂

  7. carlise meinke de almeida disse:

    Você me fez chorar. Muito bom saber que mesmo sem saber a gente “tava” acertando.
    Eu só achei que no lugar de Bad Religion deveria ser “Dashboard confessional”. Você é linda por dentro e por fora, te amo.

  8. Helena disse:

    Noriinha, sua mãe realmente deve ter sido ,uma ótima mãe!
    E deve ter realmente ficado muito emocionada ao ler suas palavras!
    É a recompensa que toda mãe gostaria de ouvir!
    Bjs para vc e parabéns a sua mãe ,que ainda não conheço mas teria muito prazer em conhece-la!

  9. Amanda disse:

    Hariana, você não tem ideia do QUANTO eu me identifiquei com esse texto!
    Porém, no meu caso, não é somente a minha mãe que respeita os meus gostos. É minha mãe e meu pai.
    Vou até ler este texto para ela e explicar o quanto eu me identifiquei com esse texto.
    Olha, juro que se você escrevesse um livro somente com estes textos que você posta aqui no blog, eu compraria! Você escreve MUITO bem! Admiro a sua forma de escrever. Parabéns!

  10. Monica disse:

    Nossa, Hari! q lindo isso! Arrepiei lendo! tive uma mãe, q assim como a sua, gostava de MPB e me apoiava mto no meu rock’n roll!
    Um salve eterno as nossas rainhas!

  11. Wanila Goularte disse:

    Lindo o texto. Nunca segui nenhum estilo, sempre tive o meu próprio jeito de ser/agir e muitas coisas influenciaram nesse meio. Separação dos meus pais, morte do meu pai… Enfim, as coisas que acontecem conosco fazem o que somos e eu também agradeço imensamente a minha mãe por não querer me transformar em quem não sou. Me identifiquei com suas palavras de uma certa forma, dê um abraço na sua mãe por mim, o mundo precisa de mais mães assim! Beijos.

    http://wanilagoularte.wordpress.com

  12. Catarina disse:

    Oi nani, engraçado.. eu SEMPRE tive vontade de tatuar essa imagem. e você conseguiu descrever exatamente o que ela significa pra mim. escreveu pra alguém e com as suas palavras. mas o sentimento é o mesmo.
    Eu não conheço meu pai, e minha mãe me criou sozinha. Graças a Deus ela teve toda essa sensibilidade e hoje me inspira a ser tão boa mãe quanto ela.
    Espero que eu consiga.

    Acredito que logo mais, serão seus filhos a contar estórias parecidas com essa..
    Um beijo muito muito grande pra ti. Saudades!

  13. Manuela Maia disse:

    Oi, Hariana. Descobri o seu blog hoje e estou adorando todas as publicações.
    Me identifiquei muito com esse texto. Não pela mãe que tenho, que apesar de sempre ter me dado tudo, quase nunca me apoiou em algo. Me identifiquei por querer ser exatamente como a sua mãe. Uma mãe.

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