Divagações de um sábado solitário – amar sem defeitos é amar de mentira.

Na esquina do quarto, uma luminária em forma de árvore – a primeira peça de decoração que comprei quando nos mudamos para este apartamento. Do meu lado direito a taça de vinho que eu aproveito pra beber quando estou sozinha, ele não bebe. No som, uma seleção de músicas bem melancólicas que só servem para serem ouvidas na solidão. Em algum apartamento por perto duas pessoas brigam, talvez mais de duas. O caminhão do lixo parece estar parado na nossa rua há mais de uma hora e as janelas fazem barulho com qualquer rajada de vento lá fora. É um milagre, a bancada não tem uma peça de roupa minha sequer, na rede social aberta aqui na frente, várias notificações saltam na tela. De pijama embaixo de dois cobertores e sobre o travesseiro dele – há um prazer em dormir com ele quando a cama fica só pra mim. O moletom extra grande do Mickey não me deixa nada sexy, a cara lavada, o cabelo preso e os óculos só pioram minha situação. Onde ele está não tem sinal de celular, nem que eu quisesse poderia conversar com ele agora, então me arrasto um pouco pro lado esquerdo da cama, onde ele estaria agora não fosse  o trabalho. Em um momento de reflexão comigo mesma, analiso tudo que acontece e o caminho em que estamos. Já não existe mais aquela necessidade de impressionar, não tem mais aquele cuidado ao escolher as palavras e o mau humor nunca mais foi escondido, agora qualquer mau tempo é assumido e ai de quem reclamar! Não há mais a necessidade de arrumar-se e perfurmar-se com todo cuidado no encontro e eu não preciso mais fingir que não tenho frescura pra comer. A bochecha não cora mais com os comentários dele e ele já nem leva mais a sério quando me declaro. Eu o chamo de lindo, ele também não parece mais acreditar. Ele já não me elogia mais com a mesma frequência e não pensa mais duas vezes antes de brigar comigo. A tolerância e o receio de puxar a orelha foi embora há muito tempo para os dois, incomodou-falou, agora é assim. E se não falou, o bico e cara fechada entregam: tem algo errado no ar. A gente já não se presenteia tanto quanto antes e as declarações públicas de afeto têm sido cada vez mais raras. E você aí que me lê, acha que isso é um desabafo melancólico/nostálgico, né? Pois bem, aí que você se engana. Antes de viajar, ele me disse que na volta compraríamos o tapete novo da sala. Aliás, pela primeira vez não o levei até o ponto de encontro onde partiria para estrada, pedi que fosse com o carro e o deixasse no estacionamento. Ele pediu que eu ficasse mesmo em casa, não é seguro sair por aí de madrugada, São Paulo não é brincadeira. Ele pediu que eu arrumasse o armário dele – já está uma bagunça e ele não acha mais nada – e ele não consegue arrumar aquelas roupas todas. Quando ele me pergunta onde foi parar o gorro dele, eu sei que é um jeito de admitir que precisa de mim – eu sempre sei onde está o gorro. Algum dia nessa semana, eu o peguei sentado no chão na frente da vitrola ouvindo alguns discos antigos, em silêncio me ajoelhei ao lado dele e dei meu ombro, caso ele precisasse – ele precisava. Ele deu o nome do meu carro novo, eu já acatei. Ele vai voltar e logo vai ter que trabalhar de novo, já sei que não posso esperar o melhor dele nos próximos dias e tá tudo bem. Eu não digo que tenho saudade, mas arrumo a casa pra recebê-lo da melhor forma possível. Saio sem ele, mas me arrependo, volto cedo. Já não há mais nomes de pessoas nas nossas vidas que não saibamos quem são. Não é mais preciso esconder que sente ciúme e nem há mais cerimônia nos questionamentos: “quem é esse cara que você começou a seguir?” ou “por que você está seguindo essa menina?”. Eu não digo que o amo com a mesma frequência de antes, mas nunca saio da cama sem antes arrumar a coberta sobre ele. Ele não me elogia mais, mas volta e meia coloca os holofotes sobre mim e me fotografa – eu sei  o que isso quer dizer. Quando faço o almoço dele, antes de entregar o prato, pergunto se ele sabe qual foi o ingrediente extra que coloquei e ele responde de primeira, sem pestanejar: amor. Aí eu vejo as grandes declarações por aí, vejo pessoas sedentas de palavras, de fotos, de faixas, de outdoors… Coitados, amor não é nada disso. Amar é brigar, é querer esganar às vezes, é xingar, é irritar-se, mas nunca – nunca – abandonar. Amar é abrir mão das suas poucas horas de sono para esperar o outro para jantar, amar é não ligar mais se a calcinha é bege, se a barba está mal feita, se as olheiras estão enormes, se a careca está aumentando. Amar é não aquietar-se até que veja nos olhos do outro que está tudo bem. Aliás, amar é acreditar apenas nos olhos. De nada adianta ouvir um “tá tudo bem” se os olhos entregam o contrário. Não disfarço mais a TPM, não escondo o ciúme, assumo os quilinhos a mais, abro o jogo quando estou brava e até aprendi a dizer não. Ele nunca mais acordou mais cedo por minha causa e nem abriu mão de um jogo do Corinthians, não ouve mais um segundo daquela música ruim que gosto e nem repara mais quando pinto as sobrancelhas. Quando a gente ama, a gente relaxa e isso não é ruim, a gente aprende que o sentimento é impresso em atitudes pequenas que só quem sente consegue ver. Veja só, a gente precisa comprar um tapete, uma TV pro quarto e ele precisa descansar, eu preciso fazer uma cirurgia, a água acabou, quando ele voltar, precisamos ir ao mercado, amar é dividir. Temos algumas jantas com amigos a marcar e sei as encomendas que estão para chegar em nome dele, ele sabe que se for pra mim, é o Sr. Fredericksen. Ele tirou férias e viajou pro exterior sozinho, mas a mala veio cheia de presentes pra mim. Eu viajei para a casa dos meus pais e ao invés de sair com amigos antigos, acabei ficando na cama trocando mensagens com ele. Ele foi trabalhar e voltou com um chá de maçã pra mim, fui à uma reunião e voltei com um chocolate para ele. Ele não divulga mais fotos nossas com frases feitas, mas quando temos que ir no mercado, ele vai no meu preferido. Eu não me declaro mais aos sete ventos, mas abro mão do que precisar pra ver o sorriso no rosto dele. Esse aqui deveria ser mais um dos meus tantos textos que escrevo e guardo na pasta mais secreta do meu computador e que nunca são divulgados, mas achei que pudesse ser interessante mostrar que o amor perfeito não existe. O amor é essa coisa bagunçada, cheia de defeitos, estranha e confusa. O amor não é gritado, o amor é só sentido, é preciso sensibilidade para perceber o que pequenas ações querem dizer. Quando pego a estrada, sei que a necessidade dele de uma mensagem minha dizendo que cheguei bem é uma forma de amar e ele sabe que o amo quando antes de pegar essa estrada, eu o beijo na testa e me asseguro de que está coberto. O que quero dizer pra vocês é que os contos de fadas hoje me cansam e que documentários é que passaram a fazer sentido pra mim. Príncipes viram sapos e carruagens viram abóboras, bom mesmo é viver baseado em fatos reais onde amamos sapos e nos divertimos passeando em abóboras. E se você ainda não enxerga isso, tudo bem, eu entendo… Talvez ainda precise conhecer alguns falsos príncipes pra entender que a felicidade de verdade está naquele sapo que não faz a menor questão de negar que é sapo, uma hora sua meia-noite chega e, com ela, a felicidade também.

35 comentários sobre “Divagações de um sábado solitário – amar sem defeitos é amar de mentira.

  1. Helena disse:

    Querida,vc está mais adiantada que eu…. Só agora com meus 60 anos vi que amar é outra coisa do que esperava e achava que era. Sempre fiz questão de estar arrumada e maquiada,para o meu par!
    Atualmente (só a poucos meses….) vi que isso não é o mais importante
    .Como vc diz:” Amar é brigar, é querer esganar às vezes, é xingar, é irritar-se. Amar é abrir mão das suas poucas horas de sono para esperar o outro para jantar, amar é não ligar mais se a calcinha é bege, se a barba está mal feita, se as olheiras estão enormes, se a careca está aumentando. Amar é não aquietar-se até que veja nos olhos do outro que está tudo bem. Aliás, amar é acreditar apenas nos olhos. De nada adianta ouvir um “tá tudo bem” se os olhos dizem ao contrario”É saber que algo não está bem, apenas ao ouvir um ” alô” do outro lado do telefone.
    E nunca,dormir brigado com o outro!!
    Fico feliz por vcs terem esse amor que, só agora aprendi a viver..

  2. Rayssa Pansan disse:

    Lendo esse texto tive ainda mais certeza de que compraria seu livro! Sua visão do mundo me encanta, espero um dia conhecer esse tal amor! Tenho só 15 anos, mas quando crescer quero ser igual a você! Obrigada por compartilhar conosco esse seu simples e lindo momento!

  3. Tati Henr disse:

    HARIANA. Não deixa esse blog não, nunca. Esquece, deixa de canto até quando sentir vontade de novo, mas ele é singular, de ouro mesmo e precisamos disso, de realidade, de intimismo e não só belas produções e mais do que todo mundo posta.
    Bom, o que eu quero te dizer….
    É que cada vez mais as pessoas acabam achando que a verdade é o piloto-automático, e perceberem o ‘ele não elogia mais/não é tao paciente/não…. como antes’ e não tem a sensibilidade, que é puta INTELIGÊNCIA, por fim acabam se entristecendo por encabulamentos que elas mesmo criaram e que não existem, mas que porque alguém algum dia disse, se dá por certo e poxa, não é por aí. O propósito do seu texto, de amor DE VERDADE, amar pra si, à dois, e não pra outros rege mil outros pensamentos, todos somos cheios de defeitos mas isso não deveria se chamar assim, são diferenças apenas, e uma coisa compensa e completa a outra, assim é.
    Parabéns por saber traduzir sentimentos em um texto tão lindo e claro!! Toda a felicidade do mundo pra você!!!

  4. Raphaella hayna disse:

    O que dizer para você e esse texto sensacional? Em poucas (ou muitas) palavras tu expressou o que muita gente pensa que acontece quando já não se tem mais sentimentos entre ambos. Adorei tua forma de pensar e eu concordo totalmente. Pois tenho um relacionamento parecido. Felicidades, muitas!

  5. beabyy disse:

    Meu Deus, que texto incrível. Me indifiquei da primeira palavra á ultima, e concordo com todas elas. É esse sentimento verdadeiro, o tal do amor verdadeiro, que muita gente não entende, e que você soube exatamente como “definir”. Vou mandar pro meu namorado, divulgá-lo na minha página do facebook (se eu puder) e salvar no meu computador pra ler sempre. Pra ler quando eu esquecer que o princípe não existe, e que ser sincero e amar de verdade não é com mil te amo por dia, e sim o carinho e briga de sempre. Por favor, poste sempre seus textos. Estamos encantadas! Beijos, Hari!

  6. Camila Gomez disse:

    Eu chorei lendo seu texto, e simplesmente não tenho palavras para expressar o que me causou. Eu apenas sinto vontade de lhe agradecer, por ter doado perte do seu tempo e dos seus sentimentos aqui. Tô morrendo de vontade de escrever um monte de coisa linda e poética, porque são essas as coisas que você inspirou. Mas eu juro, não sao suficientes. Sentir fala bem mais. E eu sei que você consegue me entender também. Obrigada, menina especial.

  7. Georgia disse:

    Esse texto ficou realmente demais. Eu tenho muita dificuldade expor ou articular e enquadrar as frases corretas, por isso acho lindo quando leio algo que me identifico, e foi esse o caso. Com o passar dos tempos, algumas atitudes se perdem, mas pra mim o que veio com o tempo é muito mais gratificante do que foi ficando pra tras, o conforto e a cumplicidade me fazem me sentir muito melhor, amada e mais segura do que as frescuras de antes, quando eu chegava na casa dele, ele nunca me abraçava se escovar os dentes, eu nunca ia sem maquiagem, agora acordo do lado com a cara amassada e ganho um abraço e um beijo de bom dia, sem a preocupação de escovar os dentes antes. A intimidade e a parceria é algo maravilhoso, não tentar impressionar sempre, mas me trazer um esmalte quando foi no mercado por que achou que eu ia gostar da cor, poder pedir pra ele trazer a minha base preferida quando vai pro paraguai, por que posso confiar que ele sabe a cor, sei que vai pedir a empadinha sem azeitona, o sanduiche sem picles e a pizza de calabresa sem cebola, por que sabe que eu não gosto. Tudo isso é lindo e ninguém mais ve, e vale muito mais do que muita coisa, que muita gente valoriza por ai. O amor não é perfeito, o amor é real.

  8. Pauline Carvalho disse:

    Em tempos de mundo virtual, em tempos em de que todo mundo tem que postar o que faz pra provar algo pra alguém que nem esta interessado realmente, em tempos de que o amor quando virtual é doce e quando real é amargo, a gente precisa ler isso. Amor de verdade, de gente de verdade, de que faz o que tem que fazer pq ama e quer ta junto. Admiro vcs! Toda felicidade do mundo pra vcs! E amor, sempre.

  9. Anna Barbara Duarte Pereira disse:

    Foi muito lindo ler esse texto. Serviu perfeitamente pra mim, porque estou passando por uma crise com o meu namorado e sempre tivemos esse amor sincero que você relata no texto. O amor muitas vezes não é bonito.

  10. luane (@lumlqs) disse:

    Por favor divulgue mais textos da sua pasta secreta guardada no computador, como pode ter tanto talento numa pessoa só?
    Sua escrita é incrível demais, é tão sincera, tão leal, tão bonita, me deixa tão sem palavras.
    Amei o texto, está cheio de verdades.. Amor é bem por aí.. No início tem lá suas cerimônias, seus disfarces, mas depois fica “só” o amor.. Demais.

  11. Henrique Rocha disse:

    Achei interessante e tô vendo que, em muita coisa, isso é verdade. Como o blog é seu e logo nele tem um escrito mostrando que é a sua opinião que será imposta aqui, então compreendo, mas não acho certo você apontar o dedo e dizer o que é ou o que não é amor. Pessoas que namoram 5 anos e ainda se arrumam e gostam de palavras bonitas eu as julgo apenas como pessoas “melhores” que eu.

    Acho que o amor muda de pessoa pra pessoa e acho que muita coisa se perde e o amor é mostrado apenas em atitudes, como você disse. Parabéns!

    • Hariana disse:

      Não estou dizendo o que é certo ou errado, quando saímos ainda uso o perfume que ele mais gosta, ainda me arrumo, ele ainda diz que eu estou bonita, eu ainda digo que eu o amo e ele ainda me mima na TPM. O que quero dizer é que o amor se esconde nos lugares e nas ações mais despretensiosas e não nas obviedades. Aqui em casa palavras bonitas não faltam e a gente nunca se xingou, talvez você não tenha compreendido direito o que eu quis dizer com a minha divagação 🙂 e à propósito, não acho que as coisas se percam no amor, acho que elas apenas se tranformam. Pra melhor.

  12. Renato disse:

    Texto maravilhoso. De um sentimento profundo, apesar de jovem. Eu vetusto estou vivendo agora depois de meio século. Continuem assim. Só trará a vocês um alicerce sólido que um furacão nunca destruirá.

  13. Gabriela disse:

    Sem palavras para o quanto amei esse texto! Uma combinação de palavras tão simples mas com um significado grande e uma profundidade imensa.

    Posso dizer que vi muito do meu relacionamento aí. Ainda não moramos juntos, mas em quase 3 anos juntos as coisas são bem assim, e o amor, ah o amor… Vemos nos pequenos gestos!

  14. Leticia disse:

    Suas Crônicas são sempre envolventes. Obrigado por passar um pouco de vocês para nós.
    Me vi em vários pedaços desse texto, namoro a 6 anos e temos tudo isso, todos os dias. Mas sei que a cada dia que passa o nosso amor se transforma.

  15. Siii disse:

    Li esse texto no trabalho, e fiquei estática na frente do computador. Quase 15 minutos se passaram sem que eu percebesse. Joguei fora uma relação por pensar que não era mais reciproco, justamente cobrando coisas como ´´voce nao é mais como no começo´´. Claro que nao era! E isso era ótimo! Seu texto me fez enxergar tudo com outros olhos. Obrigada.

  16. Thais0 disse:

    E esse texto me fez chorar desesperadamente ao telefone, com meu namorado que ta muito longe de mim. Me fez chorar pq é exatamente tudo isso o que você disse, exatamente desesperador em alguns momentos, e totalmente desesperadora a vontade de te-los ao nosso pra equilibrar todo o nosso mundo. O tempo passa, e vem outras formas de expressar nosso amor, e as vezes o eu “você é o amor da minha vida” é quase a ultima coisa a passar pela sua cabeça, não pq não é mais suficiente, mas pq as vezes um “você é tão mala”, faz com que ele entenda o que você diz, e a gente ainda ganha o bônus de dar risada. Parabéns, de verdade pelo documentário rs. (Ah, e o desesperador não foi só por saudade, é também pq a gente é tão tão tão feliz que chora feito uma criança)

  17. Thais disse:

    E esse texto me fez chorar desesperadamente ao telefone, com meu namorado que ta muito longe de mim. Me fez chorar pq é exatamente tudo isso o que você disse, exatamente desesperador em alguns momentos, e totalmente desesperadora a vontade de te-los ao nosso lado pra equilibrar todo o nosso mundo. O tempo passa, e vem outras formas de expressar nosso amor, e as vezes o “você é o amor da minha vida” é quase a ultima coisa a passar pela sua cabeça, não pq não é mais suficiente, mas pq as vezes um “você é tão mala”, faz com que ele entenda o que você diz, e a gente ainda ganha o bônus de dar risada. Parabéns, de verdade pelo documentário rs. (Ah, e o desesperador não foi só por saudade, é também pq a gente é tão tão tão feliz que chora feito uma criança)

  18. Tati Maio disse:

    Como muitos comentaram aqui, eu também quase chorei lendo o texto…parece que você esta falando de mim! Parabéns pelo seu talento, e continue postando textos como esse! ❤

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