A gente não consegue ficar indiferente debaixo desse céu.

Criolo diz que aqui não tem amor, em contrapartida, o coração de Caetano descompassa quando cruza a  Av. Ipiranga com a Av. São João. Tom Zé já se dividiu entre Augusta, Consolação e Angélica… Rita Lee veio pra cá e Humberto Gessinger fez uma canção parado em uma esquina da cidade cinza.

Essa São Paulo que inspirou tantas músicas e tanta gente, já tem minha atenção há muito tempo. Feriados em que eu saía do Sul pra me encantar pela janela de um taxi nas avenidas dessa cidade colossal. Foram alguns finais de ano correndo a São Silvestre no último dia de dezembro em meio a muitos sotaques… Toda volta pra casa era com a sensação de que São Paulo era meu lugar. Há quase um ano, por amor em muitos sentidos (por mim e por outra pessoa),  coloquei o coração na bagagem, tomei coragem e vim. Se antes tinha minha atenção, agora a maior cidade do país tem meu amor. Aqui a gente evita alguns lugares, fica de olho em possíveis “nóias” ao redor, sobe o vidro em muitos semáforos e evita andar a pé durante a noite, dizem que eu sou louca por largar a qualidade de vida do litoral catarinense pra me aventurar na selva de pedra, loucos são eles.

Quem diria que uma cidade me ensinaria tanto? Dou bom dia pro porteiro cearense, pego o taxi com o motorista baiano, faço a unha com a manicure goiana. O garçom que me atende é pernambucano e a moça do caixa da livraria tem sotaque do Sul. No metrô não se sabe qual o sotaque predominante, só se sabe que não é o paulistano. A cidade dos rolês, das minas e dos trampos me ensinou muito sobre respeito, me fez quebrar alguns paradigmas e deixar alguns preconceitos bobos no passado. Tem espaço pro punk, pra socialite, pro sertanejo, pro funkeiro, pro gay, pro rico, pro pobre, pra todas as religiões, todos os credos, todas as tribos, todas as cores, todas as raças. É maior que coração de mãe.

sãopaulo

Tem comida dos quatro cantos do mundo, tem rua só de noivas, outra só de carro, tem bairro só de roupa, espaço só de muamba. Tem Michael Jackson na rua, tem Elvis também. Tem o museu da língua portuguesa, do circo, da marinha, do esporte, da imagem, do som, da escultura, da arte moderna, da arte contemporânea, entre muitos outros. Tem prato feito por oito reais, tem sanduíche de sessenta. Tem mansão do lado da quitinete. Tem centenas de padarias – ah, as padarias! – tem outras centenas de bares. Tem muita poluição, tem um céu cinza no centro, às vezes é difícil respirar, mas é sempre muito fácil sentir. Tem metrôs e ônibus lotados, mas não há lugar em que você não possa chegar. Tem rock, tem samba, tem funk, tem bossa. Tem Chanel, tem Louis Vuitton, tem a 25 de março, tem feira livre todo dia, tem fruta fresca, tem mercado com fila pra comer pão com mortadela, tem manifestação de todas as artes, música, moda, teatro, grafite… Tem um trânsito cruel, quinze minutos facilmente se transformam em um hora, tem frio de manhã, chuva no almoço e calor à tarde, morar em São Paulo é estar preparado para as quatro estações durante os 365 dias do ano, morar em São Paulo requer paciência, sim, mas todos os defeitos são justificáveis e facilmente perdoados, como guardar rancor de uma cidade que abraça a todos sem distinção?

Essa divagação não tem nenhum objetivo específico, não tem começo, nem meio, nem fim… É só uma declaração de amor. São Paulo, você é “da hora”!

6 comentários sobre “A gente não consegue ficar indiferente debaixo desse céu.

  1. Clara disse:

    É lindo, pra mim, ler um texto desses. Sempre carreguei um discurso de que São Paulo é um imenso mosaico, completo por peças bem pequenininhas, mas que se encaixam de uma forma tão bonita que deixa o cinza do céu cheio de cor. Nasci e passei maior parte da minha vida em Salvador. Meu pai, do interior baiano, minha mãe, paulistaníssima. Cresci passando férias em SP, até que, em meio a um “vai e vem” louco, me mudei pra cá de vez. A Bahia tem meu coração e minha saudade, mas confesso que morar em Sampa é uma experiência única. A cada estação de metrô, você tá em um novo lugar do mundo, e isso tudo dentro de uma única cidade. Diversas culturas, línguas e crenças convivendo em harmonia e com respeito: isso é o mais bonito. Além disso tudo, os próprios hábitos paulistanos são de encantar qualquer um (aaaah, as padarias)! Enfim, adorei o post! Muito sucesso pra você nessa cidade que é, sim, cheia de amor. Beijo!

  2. Camilla disse:

    Eu que larguei São Paulo para morar no sul, mas esqueci meu coração em algum canto dessa imensa cidade. As vezes penso que tudo aconteceu do jeito que tinha que ser.. amo Sampa, mas Floripa me deu pessoas especiais e inesquecíveis, que coincidência ou não, não são daqui. Concordo com muita coisa que você disse, minha primeira vez aqui no sul e não tenho palavras pra descrever o quanto aprendi em relação a respeito aí, e trouxe pra cá. Só quem vive sabe!

  3. Bruna disse:

    São Paulo também tem meu coração. Não voltaria a morar aí porque sei que estou onde deveria estar e me sinto completa na cidade onde construí minha família, meu lar, minha vida profissional. Mas São Paulo é destino obrigatório pelo menos uma vez por ano. Não só pela pizza de catupiry, pelo pastel de feira, pela educação com a qual somos atendidos ou pelas conversas na fila com algum desconhecido. Mas principalmente porque essa cidade tem cheiro de infância pra mim. De uma das melhores e mais felizes fases da minha vida. Tem amigos de infância e de adolescência.
    Essa cidade sempre me provoca um sorriso no rosto quando falo dela e tenho muito orgulho de falar que sou paulistana!
    Ótimo texto. Concordo em tudo!
    Bjo.

  4. Mariana Stutz disse:

    Estou apaixonada. Paulistana moradora do Rio, carrego as duas irmãs rivais no meu coração. É aquilo, falou bem de uma delas, falou bem de mim.
    Logo, obrigada pelo elogio. 🙂

  5. Kézia Andrade disse:

    Olá Hari, tudo bem? Haha .. Pois é, já faz um tempo que sou totalmente adepta ao seu instagram, e já amo, e hoje quando vim ao blog fiquei mais encantada ainda. O jeito com que você transforma o que sente em palavras é magnífico, e esse post sobre São Paulo então, como não amar?
    Eu sou mineira, do interior, mas por várias vezes já fui a São Paulo, minha irmã mais velha morava lá, minha família inteira não gosta, mas mesmo assim, eu ainda sou a única que defende a selva de pedra, que abriga todas as raças. Seu texto diz tudo o que sente alguém que ama São Paulo, porque essa cidade linda é isso mesmo, uma mistura completa onde sempre cabe mais um!!

    Beijos Hari, parabéns pelo blog!

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